a astrologia tradicional, os aspectos são os olhares (do latim aspicere, "olhar para") que os planetas lançam uns aos outros segundo a geometria dos signos. Um planeta que contempla outro pode testemunhar a seu favor ou contra ele; planetas que não se contemplam permanecem cegos um ao outro, incapazes de agir em conjunto. Compreender esses olhares é compreender a trama de testemunhos que sustenta o juízo de qualquer mapa.

Os aspectos como configurações dos signos

Antes de medir graus, a tradição mede signos. Cláudio Ptolomeu, no Tetrabiblos, define os aspectos pela relação entre os lugares zodiacais, e é dessa relação que nasce a sua natureza:

AspectoDistânciaRelação dos signosNatureza
Conjunçãomesmo signocorpos unidosdepende dos planetas
Sextil2 signos (60°)mesma seita (gênero)concordante, brando
Quadratura3 signos (90°)mesma modalidade, naturezas contráriasdiscordante
Trígono4 signos (120°)mesma triplicidade (elemento)concordante, o mais amigo
Oposição6 signos (180°)signos opostosdiscordante, máxima tensão

A conjunção, a rigor, não é um "olhar", mas uma união corporal: os planetas ocupam o mesmo lugar e misturam suas naturezas. Os demais quatro são os verdadeiros raios — dois amigáveis (sextil e trígono) e dois adversos (quadratura e oposição).

Trígono e sextil são concordantes porque unem signos de mesma família — o trígono, signos do mesmo elemento; o sextil, signos do mesmo gênero (masculinos ou femininos). Quadratura e oposição são tensos porque ligam signos de naturezas incompatíveis. Não existem outros raios: ângulos como 30° e 150° não são aspectos.

Conjunção — união

Dois planetas no mesmo signo misturam suas substâncias. O resultado depende inteiramente de quem se une: Sol e Vênus suavizam; Marte e Saturno endurecem. Uma conjunção com benéfico abençoa o lugar; com maléfico, o oprime.

Trígono (120°) — o raio mais amigo

Liga signos do mesmo elemento. É o testemunho de maior concórdia: os planetas se favorecem com facilidade, como aliados de mesma natureza. Mas concórdia não é virtude em si — um trígono entre dois maléficos apenas torna o seu mal mais fluente.

Sextil (60°) — concórdia branda

Une signos do mesmo gênero. Favorece, porém com menos força que o trígono: é uma boa vontade que precisa de ocasião para se cumprir.

Quadratura (90°) — combate

Liga signos de mesma modalidade mas qualidades opostas. É o raio do conflito aberto, do impedimento e do esforço. Dois planetas em quadratura disputam, e o mais digno tende a prevalecer.

Oposição (180°) — confronto

Signos diametralmente opostos olham-se de frente. É a máxima discórdia, a do equilíbrio que se rompe — manifesta-se sobretudo nas casas de outrem: sócios, adversários, cônjuges.

Aversão — quando os planetas não se veem

Os signos que distam 30° ou 150° estão em aversão: não se contemplam. Um planeta em aversão a outro — ou ao seu próprio domicílio — atua às cegas, sem poder socorrer aquilo que rege. A astrologia tardia rebatizou esses ângulos de "semisextil" e "quincúncio" e os tratou como aspectos menores; a tradição é clara: aversão é ausência de olhar, não um olhar fraco.

Aplicação e separação

Um aspecto está aplicativo quando o planeta mais veloz se aproxima do ângulo exato — o assunto está por vir, ganhando força. Está separativo quando já passou do exato e se afasta — o assunto é coisa do passado, perdendo vigor. O juízo tradicional dá enorme peso a essa distinção: promessas se cumprem por aplicação.

Na tradição, o orbe é o halo de luz de cada planeta — não uma margem fixa do ângulo. O Sol tem cerca de 15°, a Lua 12°, Saturno e Júpiter 9°, Marte 8°, Vênus e Mercúrio 7°. Dois planetas se aspectam quando a distância ao ângulo exato cabe na soma de suas metades de orbe (moietés). Quanto mais perto do exato, mais vivo o testemunho.

Recepção, bonificação e maltrato

O ângulo descreve a forma do olhar; os planetas envolvidos descrevem a sua qualidade. Júpiter e Vênus são os benéficos; Saturno e Marte, os maléficos. Daí três noções essenciais:

  • Recepção — quando um planeta aspecta outro que está em sua própria dignidade (domicílio, exaltação…), o segundo o "recebe", e o vínculo se torna cordial, hospitaleiro.
  • Bonificação — um planeta auxiliado por benéfico, ou por raio de recepção, tem seu significado elevado e protegido.
  • Maltrato — um planeta atacado por maléfico por quadratura ou oposição, ou sitiado entre Saturno e Marte, tem seu significado corrompido.

Por isso um trígono não é simplesmente "bom" nem uma quadratura simplesmente "má": um trígono de dois maléficos pode arruinar; uma quadratura recebida por benéfico pode edificar. A natureza dos planetas comanda; o ângulo apenas modula.

Como julgar os aspectos de um mapa

  1. Identifique os planetas e o que cada um significa por natureza e por regência.
  2. Veja o tipo de raio — concordante (trígono, sextil) ou discordante (quadratura, oposição).
  3. Pese a dignidade de cada planeta: um maléfico digno fere menos; um benéfico debilitado ajuda menos.
  4. Verifique aplicação ou separação e a proximidade do exato.
  5. Considere recepção e seita — um maléfico da seita em destaque comporta-se melhor.

Os benéficos, quando configurados aos significadores, prometem coisas boas; os maléficos, quando os ferem por raio adverso, prometem dano — e o astrólogo julga pela dignidade e pela recepção qual testemunho prevalece.

— segundo Guido Bonatti, Liber Astronomiae

Perguntas frequentes

Quantos aspectos um mapa tem?

Mais do que se deve interpretar todos. Comece pelos planetas que contemplam o Sol, a Lua, o Ascendente e os seus regentes — são esses os testemunhos que decidem o mapa.

Trígonos e sextis são sempre bons?

Não. São raios concordantes, o que torna mais fácil aquilo que os planetas significam — para o bem ou para o mal. Um trígono de Saturno a Marte facilita a dureza tanto quanto um sextil de Júpiter a Vênus facilita a fortuna.

O que é um Grande Trígono?

Três planetas em triplicidade, todos a 120°. Indica grande concórdia num elemento, mas a tradição adverte: concórdia sem dignidade rende pouco — importa quais planetas formam a figura e em que estado se encontram.

Conclusão

Os aspectos são a gramática dos olhares no céu. Lê-los à maneira tradicional — pela relação dos signos, pela seita, pela dignidade, pela recepção — é o que separa uma leitura superficial de um juízo verdadeiro do mapa natal.


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